Quando
Carlos Drumond de Andrade
“Quando
o poder, que emana do povo, deixa de ser exercido, ou contra o povo se exerce,
alegando servi-lo;
quando
a autoridade carece de autoridade, e o legítimo se declara ilegítimo;
quando
a lei é uma palavra batida e pisada, que se refugia nas catacumbas do direito;
quando os ferros da paz se convertem em ferros de insegurança;
quando os ferros da paz se convertem em ferros de insegurança;
quando
a intimidação faz ouvir suas árias enervantes, e até o silêncio palpita de
ameaças;
quando
faltam a confiança e o arroz, a prudência e o feijão, o leite e a tranquilidade
das vacas;
quando
a fome é industrializada em slogans, e mais fome se acumula quanto mais se
promete ou se finge combater a fome;
quando
o cruzeiro desaparece no sonho de uma noite de papel, por trás de um cortejo de
alegrias especuladoras e de lágrimas assalariadas;
quando
o mar de pronunciamentos frenéticos não deixa fluir uma gota sequer de verdade;
quando
a gorda impostura das terras dadas enche a boca dos terratenentes;
quando
a altos brados se exigem reformas, para evitar que elas se implantem, e assim
continuem a ser reclamadas como dividendo político;
quando
os reformadores devem ser reformados;
quando
a incompetência acusa o espelho que a revela dizendo que a culpa é do espelho;
quando
o direito constitucional é uma subdisciplina militar e substitui a disciplina
pura e simples;
quando
plebiscito é palavra mágica para resolver aquilo que a imaginação e a vontade
dos que a pronunciam não souberam resolver até hoje;
quando
se dá ao proletariado a ilusão de decidir o que já foi decidido à sua revelia,
e a ilusão maior de que é em seu benefício;
quando
os piores homens reservam para si o pregão das melhores ideias, falsificando-as;
quando
é preciso ter mais medo do governo do que os males que ao governo compete
conjurar;
quando
o homem sem culpa, à hora de dormir, indaga de si mesmo se amanhã acordará de
sentinela à porta;
quando
os generais falam grosso em nome de seus exércitos, que não podem falar para
desmenti-los;
quando
tudo anda ruim, e a candeia da esperança se apaga, e o If de Kipling na parede
não resolve;
então
é hora de recomeçar tudo outra vez, sem ilusão e sem pressa, mas com a teimosia
do inseto que busca um caminho no terremoto. ”