Até hoje, o conceito de gramática que você conhecia provavelmente era limitado à gramática tradicional, normativa, cujo propósito é ditar regras do que os gramáticos dizem ser o jeito “certo” de falar e de escrever. Essa é uma variante de prestígio. Ela é usada nos concursos e vestibulares e nas situações formais da vida (no tribunal, entrevista de emprego...). Isso mostra a importância de aprendermos essa variante. O grande problema com a norma culta é que muitos a disseminam como “a língua portuguesa”, ou seja, quem não a domina não sabe falar e escrever. Tal atitude cria um preconceito em relação às pessoas que não tiveram acesso (ou não quiseram, por que não?) a esse conhecimento.
É preciso que a sociedade saiba que a gramática tradicional não é a única maneira de se encarar o estudo da língua (ainda bem!). Existe uma ciência chamada Linguística cujo propósito é descrever como as línguas funcionam e não prescrever comportamento em relação a elas.
Uma área da Linguística bastante difundida atualmente é a Sociolinguística. Como o próprio nome indica, seu propósito é estudar as relações entre língua e sociedade. É aí que entra a variação, pois por mais que muitos afirmem o contrário, não há uma suposta unidade no português falado (e em nenhuma língua!). As línguas podem variar por causa de vários fatores:
1 – Variação etária: as pessoas idosas falam diferente dos jovens. Você deve conhecer alguém (quem sabe, um avozinho) que pronuncia as palavras terminadas em “l”, como sal, diferente da população mais jovem. Além disso, há muitas palavras usadas por eles e que a moçada desconhece. Aqui também entram as gírias. Condenadas por muitos, são vistas por estudiosos da linguagem (linguistas) como uma variante da língua. As gírias só se tornam problema quando a pessoa já não sabe se comunicar de outra forma.
2 – Variação em relação ao sexo: por incrível que pareça, há diferença até mesmo entre as pessoas de sexos diferentes. É muito comum entre as mulheres, o uso de diminutivos (que bonitinho esse colarzinho rosinha!). Entre os homens, isso já não é aceito.
3 – Variação em relação ao grau de escolaridade: as pessoas que tiveram acesso à normal culta tendem a incorporar em sua fala regras da gramática tradicional. Algumas concordâncias praticamente inexistem entre esses falantes (nós vai, por exemplo).
4 – Variação dialetal: dialeto é a variação regional de uma língua. No Brasil, que é um país bem extenso, há vários dialetos. Segundo um professor da Unicamp, há, aqui, sete dialetos com muitas variações:
4a) Fluminense – Rio de Janeiro, Espírito Santo e parte de Minas Gerais, cuja principal característica é o chiado.
4b) Sulista – Abrange os estados da região Sul.
4c) Mineiro – Abrange boa parte da região Centro-Oeste.
4d) Nordestino – Abrange parte da região Nordeste.
4e) Baiano – Abrange a região Nordeste, mais para o Sul.
4 f) Amazonense – Abrange a região Norte.
4g) Cuiabano – Abrange parte da região central brasileira.
A sociedade atribui valores às diversas formas de falar. Infelizmente, as pessoas agem de forma preconceituosa em relação a alguns dialetos. O nordestino e do norte são as maiores vítimas enquanto os do sul e do sudeste são privilegiados. Não há uma explicação científica para esse fato. Por trás de tal atitude encontramos questões sociais, ideológicas que contribuem ainda mais para a exclusão daqueles que, por muitas razões, já se encontram à margem da sociedade. Não podemos compactuar com esse comportamento. A língua é um bem do povo e não de uma minoria que tenta manipulá-la e manipular-nos com suas falácias.
Professora Mestra Liliane Jaqueline Guimarães Ribeiro